Cumpriu-se mais um ciclo recorrente da vida política nacional. Cada mudança de regime, no Brasil, se faz compondo com as forças do sistema anterior — e por isso a continuidade sempre atravessou as rupturas, em vez de ser apagada por elas. A Independência foi uma variante do poder de Dom João VI. A República Velha entregou o Estado aos coronéis e manteve os ex-escravos na miséria. Mesmo onde houve ruptura formal, o núcleo de poder econômico se reorganizou intacto — razão pela qual uma pobreza que, em outros tempos e lugares, bastou para alimentar revoluções nunca se converteu, aqui, em ruptura social.
A Nova República seguiu o mesmo roteiro, com um pacto conhecido. De um lado, a Constituinte garantiu um conjunto de direitos que amorteceu o clamor popular: saúde pública, educação pública, Benefício de Prestação Continuada, farmácia popular, previdência pública. De outro, contemporizou inteiramente com o modelo de financeirização implantado pelo Real. Foi esse duplo movimento — direitos que contêm a pressão de baixo, financeirização preservada no topo — que sustentou o arranjo institucional das últimas três décadas: um sistema que tendia ao bipartidarismo, um Executivo com espaço razoável de governança desde que respeitados os ganhos da financeirização, e um Judiciário e um Legislativo que, aos trancos e barrancos, conduziam o país.
O governo Lula sustentou esse modelo graças ao pré-sal e ao boom das commodities. O esgarçamento começou quando Lula trouxe o PT para a centro-esquerda e desalojou o PSDB — e quando a morte de Mário Covas e Franco Montoro liquidou as últimas veleidades social-democratas tucanas. A ascensão de José Serra e Aécio Neves, somada à constatação do poder eleitoral de Lula — eleito, reeleito e capaz de eleger a sucessora —, alimentou o sentimento golpista. Mensalão e Lava Jato degolaram as cabeças pensantes do PT, decretaram a implosão do modelo pós-constituinte e deixaram o país à beira do precipício.
A democracia não implodiu por um fator: Lula. Mas o preço dessa resiliência foi a inação diante da financeirização. A cada ano, a taxa de juros empurra para mais longe a expectativa de crescimento, e a sobrevida do modelo, no terceiro governo, deveu-se quase exclusivamente à presença de Lula na cena. Sua resistência já é um épico nacional — enfrentou a pressão americana sobre o pré-sal, o poder das big techs, a ofensiva midiática da Lava Jato, a guerra tarifária, e tem sido a peça de resistência à nova investida norte-americana. Mas o modelo quebrou em definitivo. Resta um Judiciário mergulhado em privilégios, um Legislativo dominado pelo que a política brasileira produziu de pior na história, e um Executivo refém do presidencialismo de coalizão.
O grande desafio será Lula 4 — e não apenas porque será o último governo de Lula. É que o modelo se esgotou, e não há como conviver indefinidamente com uma política monetária que suga todo o excedente produzido pelo país. A rede de proteção social não bastará para conter o descontentamento. Daí dois desafios incontornáveis: montar um novo pacto social e definir a sucessão. O caminho do pacto é um plano de metas que defina prioridades — terras raras, bioeconomia da Amazônia, energia verde, data centers — e a parte que cabe a cada ator: multinacionais com contrapartidas, empresas nacionais, pequenas empresas, trabalhadores, e a tentativa de criar oportunidades para a reciclagem do capital financeiro na atividade produtiva. Mas tudo esbarra na mesma muralha: como compor com o poder maior que emergiu do Real.
O instrumento dessa transição não precisa ser inventado: ele já existe, e foi desenhado para o avesso. A mesma engenharia que financeirizou o país — o fundo de recebíveis, a cota subordinada, a securitização — é o encanamento que pode reconvertê-lo. O que muda não é a máquina; são dois parafusos.
O capital não recusa a indústria por falta de patriotismo; recusa porque a Selic é o preço de reserva de todo o capital brasileiro — o piso de risco zero, liquidez diária e renda real contra o qual nenhum projeto produtivo, com seu horizonte de dez anos e seu risco de execução, consegue competir. Atacar esse preço de frente é exatamente o que o poder financeiro veta — e é por isso que todo governo contemporiza. A saída não está em vencer a guerra da taxa, mas em alterar o cardápio de ativos que o capital tem diante de si.
Trata-se de engenheirar uma classe de ativo produtivo capaz de disputar, na margem, uma fatia do estoque hoje estacionado nos títulos públicos. E tratar de reduzir as taxas básicas. O Estado deixa de ser apenas o emissor da renda livre de risco e passa a arquiteto da partilha do risco. Uma camada pública de primeira perda — bancada pelo BNDES ou por um fundo soberano da transição — absorve o risco inicial de execução e aproxima o retorno do investidor privado do benchmark dos públicos: é a almofada que faz o rentista migrar. Sobre ela, uma isenção fiscal que deixa de ser presente na emissão e vira direito contingente, ganho marco a marco de entrega, com recaptura na falha. E a almofada encolhe à medida que o projeto entrega — o Estado carrega o risco quando ele é máximo e se retira quando a própria produção o desfaz. Partilha dinâmica de risco, não subsídio estático.
O detalhe decisivo está na condição. Nas terras raras, o benefício se prende ao refino e à separação em território nacional, com recaptura se o ativo apenas reexportar minério bruto — de modo que a condicionalidade do incentivo seja, ela mesma, a negação da reprimarização. Nos data centers, energia verde local e soberania do dado, sob pena de se subsidiar um enclave que suga energia com selo ambiental. O instrumento financeiro convertido no antídoto do próprio fenômeno que o Real consagrou.
Nada disso opera sem o que o país desmontou: uma autoridade de coordenação e entrega — o GEIA de Juscelino vertido para a economia financeirizada. Não um produtor estatal, mas um árbitro de risco que define os setores prioritários, leiloa as almofadas para quem precisa da menor delas, afere a entrega por métrica física.
É essa instituição, e não um homem, que carrega o pacto adiante. E é exatamente aqui que a transição reencontra a sucessão: o arranjo que mora numa pessoa morre com o mandato; o que mora numa instituição sobrevive a ela. Os dois grandes desafios de Lula 4 — o pacto e a herança — são, no fundo, o mesmo desafio.
Resta o risco que não se deve esconder. Tudo isso exige do Estado precificar um risco que ele passou trinta anos sem precificar, porque só precificou o seu próprio, via Selic — e cobrar de poderosos, que é precisamente o que tem falhado em fazer. A engenharia financeira é solúvel. A aposta é institucional. E é a última que Lula terá a chance de fazer.
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Wlad
17 de junho de 2026 8:17 amUm dos melhores artigos que voce Nassif escreveu. Retrato do Brasil . Para essa mudança precisamos de uma revolução, não uma revolução armada, mas uma revolução de idéias. Aqui vale a pergunta que não se cala : Quem se candidata para liderar essa revolução ? O Lula é um lider, mas não é revolucionário. Precisamos de um revolucionário com penetração nos vários setores da sociedade brasileira que ainda tem um pequeno interesse no desenvolvimento do país, nos setores bancário e empresarial. Somente com uma forte reindustrialização moderna vamos sair desse atoleiro.
Marcelo.J
17 de junho de 2026 9:18 amResumo miito bom pena q me parece q a juventude não a absorverá não sei se é a linguagem ou a ordem narradas dos fatos,Nassif a falta de noção é geral,comp empresários ditos ENTENDIDOS e ou esclarecidos NÃO PERCEBEM os malefícios de uma economia.financeirizada pata meia dúzia de bacanas mimados bilionários q sufocam e escravizam 99 por cento delez?Isso vem da igreja católica tb q ignora bula papal contra agiotagem,de constituição brasileira q proibia tb isso,de ceo fimamceirizados do mercado admnistrando ROBUSTOS RECURSOS PÚBLICOS visamdo lucro acima de tudo?causando muitas ANOMALIAS financeiras,dominando.e desequilibrando o mundo,osnlucros precisam ser justos e equilibrados sem a dominância do dito mercado,a internet norte americana e as midias telecisivas israelenses ajudam rudo isto quando dominam e distorcem os fatos e mentes dos seres humanos,aff !!!
CristhLIVEaaronsvhwartzLUVE
17 de junho de 2026 10:13 amPq vcs acham.q o.ceo.da apple foi.destiruido mesmi com excelentes ressiltados?Oras é um ceo raiz das antigas ficou adiando a IA para preservar os.programadores q fizeram e fazem a internet norte americana mundial dominante!!!
emerson57
17 de junho de 2026 10:15 amContinuam os arreglos feitos por cima.
Rico que rouba muito é festejado.
Pobre que rouba muito é preso.
Sob essa regra nenhum rico se preocupa mais em disfarçar.
Sempre haverá uma delação premiada para fazer e um juiz venal para levat para festinha na europa.
Seja num iate ou em Portugal.
Para os que preferem tem festinhas várias em Nova Yorque.
E tome passagem para ver o jogo da seleção, para morar no Texas, ou para visitar a CIA.
As classes mérdias concordam com inveja dos poderosos que um dia possam, na sua triste ilusão, vir a ser.
O paradigma mudou, hoje já se banalizou o Bilhão que substituiu o cansado milhão.
Para os que pensam que são ricos, porque afinal compraram um carro novo em trocentas suaves prestações, não faz diferença se o roubo atingiu a casa dos bilhões.
Para quem está sufocado um bafo já seria oxigênio.
E assim nós vamos vivendo de amor.
Pedro Rocha
17 de junho de 2026 12:22 pmDe figuras nojentas como os Temer e Bolsonaro só o que se pode espera é resultados trágicos. Os realmente capazes de mudanças só podem vir da esquerda. Por isso afirmo tranquilamente que o Lula é o pior fenômeno histórico que poderia acontecer: fraquíssimo como gestor, obtuso como um estrategista. Incrivelemte, ele e seus seguidores o consideram “estadista”. Não a toa a primeiríssima medida todas as vezes após a eleição é…viajar, visitar chefes de estado, aqueles que considera com estatura apropriada para o seu tamanho. Larga as questões nacionais e busca a solução de guerras na gringas. Perde SEMPRE, nesta presunção imperdoável, o melhor momento para mudanças, reformas, ajustes etc. O Lula não antagoniza, não confronta, não busca a aprovação de leis, não cria instituições, reduz o poder de adversários, nomeia grandes talentos para postos chave do governo, entende de finanças públicas federativas. Muita coisa ainda poderia ser dita, mas já cansei do assunto e de avisar, faço isso há vinte anos. Deixa pra lá. É óbvio, mas não adianta nada…
Flics
17 de junho de 2026 8:38 pmPrezado, onde está o povo para fazer isso?
Veritas
18 de junho de 2026 12:54 pmWlad, felizmente temos um revolucionário, jovem, com experiência política, altamente articulado com bancos, políticos e setor S, como diálogo coma esquerda e Direita, empreendedor, com excelente formação escolar, mestre em economia matemática pelo IMPA, governador do Piauí elito em primeiro turno e praticamente reeleito em primeiro turno, com grande aprovação popular hoje, Rafael Fonteles. Assim como Getúlio, pressentindo que seria assassinado, procurou JK para que continuasse sua obra política (Petrobrás, Vale, interiorização e integração regional do Brasil via desenvolvimento da agricultura do cerrado pela expansão do projeto CERES e construção de rodovias etc), hoje precisamos da desfinanceirização, da reindustiralização e desenvolvimento do plano de metas que Nassif e sua equipe nos trazem, com projetos de trabalho ligados a novas matrizes energéticas, datacenters, bioeconomia da amazônia e cerrado, e demais atividades produtivas sofisticadas, ou então rumaremos para uma guerra civil. Lula conjuntamente com Rafael Fonteles tem todas as condições de fazer esta revolução produtiva. Vamos ver se o pessoal da Faria Lima, já muito acostumado com o rentismo, aceita o plano que Nassif apresenta. Seria um sinal de maturidade que contribuiria muito com os futuros lucros do mercado financeiro e o desenvovimento humano e social do Brasil. Que comecem logo os diálogos.